O que realmente importa
Sinopse: Após a morte do pai, ele voltou para limpar a casa e encerrar um ciclo. Mas entre a poeira e o silêncio, haviam lembranças, cartas esquecidas e as respostas de tudo o que nunca foi dito.
Gênero: Drama
Tags: Drama Familiar, Introspectivo, Luto
Meu pai sempre foi um cara à moda antiga, do tipo avesso a mudanças. Sua maior ousadia tecnológica foi quando ele comprou um televisor de tubo com controle remoto e, a segunda e última, foi quando adquiriu um Nokia tijolão. Usava o aparelho só para ligações. Não gostava de mensagens. Preferia enviar cartas, e eu brincava com ele dizendo que, no dia em que ele batesse as botas, os Correios anunciariam o fim do serviço postal, lamentando a morte daquele que teria sido seu último cliente.
Eu acabei de enterrar meu pai. Hoje faz um dia que ele faleceu e acho que os Correios não sabem disso. Talvez o homem da agência do centro e o carteiro que entregava minhas cartas para ele (sim, eu respondia as cartas do meu pai para manter a tradição) pensem que ele morreu no ano retrasado, pois foi quando paramos de nos corresponder, e até onde sei ninguém que conheço recebeu uma só carta dele depois disso. Ou vai ver eles acharam que meu pai finalmente aceitara o novo século de braços abertos e deixara de viver como um Neandertal.
Peguei a chave da casa de meu pai com o Sr. Nelson, seu advogado testamenteiro, ainda no velório. Ele me aconselhou a entrar lá e pegar tudo o que eu achasse importante, pois a casa irá a leilão para cobrir as dívidas do meu velho. Levei um choque quando ouvi isso. A casa onde cresci, na rua dos Angicos, 356, deixaria a família e passaria às mãos de estranhos. Foi a segunda perda em menos de 24 horas.
Então eu paro na porta da casa e me lembro de quando eu era criança. A porta ainda é grande, só que de um jeito diferente. Eu olho para os lados, retiro a chave do bolso e fico olhando para ela. É uma sensação estranha. Eu quero entrar, e ao mesmo tempo me sinto um intruso. Há quanto tempo não venho aqui? Tento lembrar, mas não consigo.
Nem sei há quantos minutos estou aqui parado, mas sei que foi o suficiente para chamar a atenção dos vizinhos. Quando finalmente crio coragem e entro, não me sinto menos observado. É a casa onde cresci, mas muita coisa mudou desde a última vez que estive aqui. Eu reconheço a maioria dos móveis, bem como esse verde chapado das paredes (agora desbotado pela ação do tempo), mas não reconheço o cheiro. É um cheiro diferente, uma mistura de doença e descaso. Aquilo que os escritores pós-modernos chamariam de mistura de cheiro de hospital com latrina de rodoviária.
Ando pela casa. Volta e meia eu tiro a mão do bolso para tocar um móvel. Por baixo deste cheiro acre há subcamadas de passado preservadas no odor da madeira envelhecida da estante, dos armários da cozinha, da velha mesa de fórmica. Mas também há muita coisa do presente, e isso me dói porque é um presente que eu não conhecia, um presente materializado por latas de cerveja vazias e guimbas de cigarro.
Quando foi que meu pai retomou seus vícios antigos? Eu nunca terei a resposta, e é melhor assim porque temo que tenha sido logo depois que paramos de nos falar.
Sigo em meu “tour” pelo meu antigo lar, e no armário sob a cuba do banheiro tenho novas surpresas: há tantos frascos e cartelas de remédios que eu poderia montar uma farmácia, e quando me perguntassem eu diria que foi herança do meu velho. Leio os rótulos. A gama vai de analgésicos simples até antiparkinsonianos. A maioria dos frascos está lacrada, e pelo menos metade já venceu.
Há mais deste presente amargo a explorar, mas ainda não tenho coragem de ir até o quarto dele. Dizem que os maiores segredos de um homem moram em sua cabeça, e quando não cabem nela vão parar no armário. Sabe Deus que tipo de coisa meu pai guardava lá.
Vou para a cozinha recolher as latas vazias e as guimbas de cigarro. Encho três sacos e ponho na rua. Retorno e passo as duas horas seguintes lavando a louça, varrendo e esfregando um pano molhado no chão.
Ao terminar, olho ao redor e suspiro profundamente. Estou tão satisfeito quanto a situação me permite estar. Com a limpeza da casa eu exorcizei alguns demônios, mas ainda há outros tantos à espreita, e, cedo ou tarde, eu terei de enfrentá-los. Então eu encaro a porta do quarto de meu pai mais uma vez, e ela me parece ainda maior que a da entrada. Respiro fundo… e entro.
Assim como no restante da casa, as evidências dos vícios de meu pai estão por toda parte. Balanço o lençol para me livrar das cinzas de cigarro e me sento à beira da cama. Olho para o travesseiro e tento imaginar como foram suas últimas noites de sono, se é que ele ainda conseguia dormir. Passo a mão no rosto, esfrego os olhos e penso no quanto ele deve ter sofrido por não haver ninguém aqui quando ele precisou. Então eu me lembro de quando eu era criança, das vezes que acordei chorando depois de ter um pesadelo, e das vezes em que precisei ir ao banheiro mas tinha medo de atravessar o corredor no escuro, e em todas essas vezes ele estava lá. Nem sempre ele me oferecia seu melhor sorriso (às vezes sequer dizia alguma coisa), mas sempre esteve presente e no fundo acho que é isso que importa.
As portas do armário me encaram. Elas são enormes e parecem dizer “tem certeza de que quer fazer isso?”. E minha resposta sincera é que eu não quero, mas preciso fazer!
E é o que faço. Ao abrir o armário eu sei que estou rompendo o dique que represa os silêncios de meu pai. Sei que aqui atrás desta porta estão as respostas que procuro. E a primeira coisa que vejo ao abrir o armário é o cabideiro com meia dúzia de casacos e camisas, mas há um casaco que se destaca. Retiro-o do cabide e o observo. É azul, de lã grossa e lhe falta dois botões. Tem cheiro de nicotina, mas nem sempre foi assim. Meu pai gostava tanto desta peça de roupa que seus amigos a apelidaram de segunda pele. Ele gostava dela porque foi o primeiro presente que ganhou da minha mãe quando começaram a namorar. E eu gosto do casaco porque, em pelo menos duas ocasiões em que senti frio, meu pai o tirou e o colocou sobre meus ombros. Era enorme para um menino de oito anos, mas era quente e é isso que importa.
Visto o casaco do meu velho pai, e ele já não me parece tão grande como antes. É engraçado como muitas coisas que pareciam grandes no passado são pequenas agora. Eu me lembro do dia em que brigamos, da raiva que sentimos, e de como tudo isso parecia grande, incontornável. Mas, por mais que eu me esforce, não consigo lembrar do que nos levou àquela lamentável troca de insultos. É como se os motivos encolhessem a cada dia, até desaparecer sob a grandeza daquilo que realmente importa.
No compartimento de baixo do armário, há uma caixa organizadora. Está pesada, e uso as duas mãos para arrastá-la até a beira da cama. Sento e me demoro olhando para ela. Eu consigo imaginar o que o meu pai guardava ali dentro, e de repente sinto como se tivesse um cisco no olho.
Abro a caixa e retiro um punhado daquilo que penso ser as cartas antigas do meu pai, mas logo percebo que não se trata disso. As datas e os endereçamentos mostram que essas cartas foram escritas ao longo dos últimos dois anos (a maioria delas endereçadas para mim), mas jamais foram enviadas. De repente eu sinto mais do que um cisco no olho. É como se tivessem esfregado areia em minhas retinas.
Isso me leva a uma nova pausa estratégica. O quarto ainda está sujo, e eu me sinto no dever de limpá-lo assim como fiz com os outros cômodos.
Acho que meu pai teria gostado disso.
Depois de uma longa pausa que foi além da limpeza do quarto, transformando-se em uma caminhada de quase cinco quilômetros, retorno às cartas de meu pai. Já é fim de tarde e o sol se deita no horizonte.
Começo a ler as cartas, uma por uma, e o silêncio de meu pai ao longo dos últimos anos vai se desenrolando como um novelo. Aquela areia insistente permanece em meus olhos e às vezes fica quase impossível de ler. Faço pausas constantes para ir ao banheiro, tomar água, respirar ar puro.
Pelo que pude perceber, meu pai também não lembrava de o porquê brigamos, mas ele se lembrava de coisas que eu já tinha esquecido e de outras que eu não sabia, como os detalhes do dia em que ele me ensinou a andar de bicicleta. Numa das cartas, ele conta que eu estava com muito medo e pedi para ele não soltar o selim por nada no mundo, e ele não soltou, embora confesse que não estava segurando de verdade. Ele diz que na maior parte do tempo era eu me equilibrando sozinho, só que ele manteve a mão lá até eu me sentir realmente seguro.
Noutra carta ele fala de um incidente que ocorreu quando eu tinha apenas cinco anos. Eu estava brincando no balanço de casa e me engasguei com uma bala Soft. Algumas semanas antes, ele tivera um treinamento de primeiros socorros na indústria em que trabalhava. Lá ele aprendera a manobra de Heimlich, uma técnica eficaz para desengasgos. E foi assim que meu pai salvou seu único filho de ter uma morte prematura.
Ele também diz que no meu primeiro dia de aula teve de me levar até a porta da sala, pois eu estava com medo de que me perguntassem onde estava a minha mãe e eu fosse obrigado a dizer que ela morreu no parto quando nasci. Ao ler isso, sinto vergonha, pois não há motivos para renegar minha mãe. Pelo que meu pai contava, ela tinha sido uma mulher incrível. Mas eu era criança, e crianças às vezes sentem vergonha e medo de coisas que não deveriam sentir.
Meu velho lembrava de tantas outras coisas, e eu me pergunto por que ele não me disse nada disso antes. Ou será que ele disse e eu estava distraído demais para ouvir?
Depois dessa, preciso de uma pausa maior. Encomendo uma pizza para o jantar, e logo em seguida, adormeço na cama de meu pai.
Ao acordar pela manhã, como o que sobrou da pizza e volto para as cartas, disposto a fazer uma leitura de fôlego, sem pausas desta vez.
Chego a um ponto crítico da leitura, em que meu pai já está bastante debilitado. Ele me conta sobre seus últimos diagnósticos, que incluem pioras de doenças pré-diagnosticadas e outras inéditas: hipertensão, diabetes mellitus, mal de Parkinson, e, por último, câncer de esôfago. No início ele tentou, mas quando soube que o câncer estava fazendo metástase, ele decidiu que não ia se tratar porque já vivera demais.
Neste ponto da leitura eu paro, massageio os olhos, mas meu problema já não é a areia, mas o mar que começa a inundar minhas retinas e desagua sobre o rosto febril. Meu peito dói. Eu quero soluçar, mas sinto como se houvesse uma corda amarrada ao meu pescoço, puxando, esmagando, dilacerando.
Sei que parte disso é culpa minha, porque eu não estava aqui para convencê-lo a fazer os tratamentos, e sequer sou capaz de apontar um motivo para isso. Mas parte é culpa dele, pois sabia de tantas coisas e nunca foi capaz de enviar uma carta, preferindo enfiá-las numa caixa dentro do armário. Fomos dois covardes, eu sei disso. Só que ele está morto e eu vivo.
Paramos de nos falar por alguma coisa sem importância, algo tão desimportante que sequer conseguimos lembrar. Eu e meu pai. E eu me pergunto quando foi que deixamos de nos importar com aquilo que realmente importa.
Termino de ler as cartas à tarde, mas não vou embora logo. Preciso de um tempo para chorar e assimilar tudo o que li e ouvi, porque a cada frase que lia, era a voz do meu pai que eu ouvia.
De tantas cartas, guardo apenas três em meu bolso, as que mais me marcaram e que eu lerei sempre que sentir saudades do meu velho. As demais eu queimo na churrasqueira. Não posso guardá-las todas. Algumas memórias precisam se dissolver na fumaça. Sei que meu pai aprovaria isso, porque há coisas que precisam ser ditas ou lidas apenas uma vez. E isso importa.
Quando o sol se põe, eu me levanto do sofá e caminho em direção à porta. Eu preciso ir para casa abraçar minha esposa, pegar meu filho no colo e dizer o quanto eu os amo.
Ao pé da porta, dou uma última olhada para o interior da casa, sem latas de cerveja e guimbas de cigarro evidenciando o declínio do meu velho pai. A casa está limpa e tem um cheiro agradável agora, e é assim que eu desejo me lembrar.
Então apago a luz e saio.