A História por Trás das Histórias 

Confesso que esta é a parte mais difícil de escrever. Talvez porque minha vida, em uma pacata cidade do Rio Grande do Sul, não tenha tornados de fogo ou eventos distópicos que costumo retratar em meus livros — como em “Não Restará Pedra Sobre Pedra” e “Cicatrizes do Tempo”, meus próximos romances. 

E a verdade mais sincera que posso oferecer é esta: sou um cara normal.  

É justamente da tranquilidade do meu dia a dia que nascem as ideias mais caóticas, a verdadeira matéria-prima das minhas histórias: o “E se?”. Num dia eu me pergunto: “E se as mudanças climáticas dessem vida a um novo e terrível fenômeno: um tornado de fogo?”. Logo em seguida: “E se um homem ‘cansado’, com uma prótese na perna e uma lata de cerveja na mão, se recusasse a deixar a cidade na rota do tornado?”.  

A coisa não para: “E se, de repente, ele não estivesse só, e uma mãe desesperada, agonizante, deixasse uma criança à sua porta pouco antes de morrer?”. É respondendo a essas perguntas que vou tecendo a história, desvelando cenas que surpreendem a mim mesmo, como a do homem amputado tentando “amamentar” um bebê com uma teta artificial em meio à catástrofe. 

Mas recuemos um passo, pois antes do escritor veio o leitor, e minha jornada com a leitura não foi óbvia. Não venho de uma família de leitores; descobri os livros na escola, por meio de uma professora que fazia a gente levar um livro para casa todas às terças. No começo, confesso, eles iam na mochila e voltavam intocados uma semana depois. Eu preferia jogar bafo, bolita ou rampar de bicicleta com os amigos — tínhamos o nosso próprio “Clube dos Otários”, versão BR. Mas um dia, por pura curiosidade, resolvi abrir “O Diabo no Porta-Malas”, do Marcos Rey, e foi aí que nasceu o leitor. 

Foi mágico.  

Aquele livro me prendeu de um jeito que, dali em diante, a biblioteca da escola ficou pequena pra mim. Eu pegava a bicicleta e ia até a biblioteca municipal, onde me distraia por horas lendo títulos e sinopses, e sempre terminava com a difícil tarefa de escolher apenas dois livros; era o máximo que eles deixavam levar para casa. Às vezes, eu os lia num único dia, deixando a “tia” da biblioteca desconfiada. Das duas uma: ou ela me achava um mentiroso nato ou um pobre-diabo sem amigos — nunca saberei. A verdade é que eu estava ocupado demais devorando mundos para me importar, e foi justamente no final de um desses livros que o próprio Marcos Rey revelou os bastidores da vida de escritor. Naquele instante, eu pensei: É isso, porra! É exatamente isso que eu vou ser!  

Só que a vida real não segue os roteiros que a gente rascunha, e eu fui parar numa fábrica de calçados, onde descobri da forma mais dura que Rey estava certo em tudo, até na parte que eu escolhi duvidar: fazer literatura no Brasil não enche barriga. No ritmo repetitivo das máquinas, a vida imitou a arte. Sem perceber, eu me tornei uma versão latina de George Milton, o sonhador pragmático de “Ratos e Homens” de Steinbeck. A rotina era a mesma: trabalhava a semana inteira e, no fim de semana, ia para a balada gastar o suado dinheiro de rapaz trabalhador. A cerveja era gelada, os amores quentes, e embora eu tenha me divertido um bocado, a verdade é que eu acabei me afastando do que realmente importa. 

O afastamento, porém, nunca foi definitivo. A escrita tem seu próprio jeitinho de cobrar o preço; a ausência dela primeiro se tornou um incômodo, depois uma urgência. E, como o filho pródigo que retorna ao lar, eu voltei. Não porque eu escolhi, mas porque eu precisava voltar. É estranho admitir, mas eu PRECISO escrever. Quando fico muito tempo afastado da ficção (como durante a faculdade de Letras, mergulhado em artigos de teoria bruta), os personagens crescem na minha cachola e eu fico com medo que eles saiam pelas orelhas. 

Com o tempo, a necessidade de contar histórias finalmente encontrou eco. Tive a alegria de ver meus contos ganharem vida em antologias de editoras que admiro, como a Inverso, a Primata, a Medusa, a Lendari Entertainment e outras. “Tornado de Fogo”, que fará parte da antologia “Cartografias 2” pela Primata, foi semifinalista do 2º Prêmio Prata da Casa 2025; e pra fechar a lista de surpresas boas (antes que isso se torne um checklist entediante das conquistas do escritor) cito a “A Personagem”, que saltou para fora das páginas e virou um curta-metragem dirigido por Renan C. Anjos. É recompensador, e ao mesmo tempo curioso, ver um bando de gente num estúdio tentando dar vida a personagens gestados na minha cabeça e paridos numa noite em que perdi o sono. 

Essa sensação, a de ver uma ideia se tornando algo real e compartilhado, é o que me move. É a mágica que me mantém debruçado sobre o teclado, trabalhando nos próximos mundos e personagens que, barulhentos, ainda não me deixam dormir direito. 

Atualmente, essa insônia criativa se divide em dois projetos: o romance de viagem no tempo “Cicatrizes do Tempo” e a distopia “Não Restará Pedra Sobre Pedra”. A melhor maneira de saber qual deles virá primeiro é acompanhar essa jornada de perto, através das minhas redes sociais ou se inscrevendo na newsletter.