A Sombra
Sinopse: Um homem é perseguido por uma sombra que não obedece às leis da física e que se alimenta de seu medo. Trancado em seu loft, ele precisa descobrir a natureza de seu algoz antes que a escuridão o consuma por completo.
Gênero: Horror, Suspense
Tags: Horror Psicológico, Sobrenatural, Paranoia
Aviso de Conteúdo: Esta história contém terror psicológico e descrições de violência.
Se a xícara de café treme feito um liquidificador em minha mão, não é porque tenho mal de Parkinson, nem nada do tipo. Se permaneço acordado às 2h30 da madrugada, e se não durmo há quase uma semana, não é porque tenho insônia. E, se todas as lâmpadas do meu pequeno loft estão acesas, não é, de forma alguma, porque tenho fobia ao escuro. Não exatamente… meu medo é de outra coisa! De uma coisa hórrida que me persegue 24 horas por dia: a sombra!
Por que então eu não apago as luzes? Afinal, sombra precisa de luz para existir, não precisa? Acontece que não se trata de uma sombra comum. Pelo menos, não daquelas que morrem na ausência da luz, permitindo que tenhamos sonhos bons enquanto abraçamos nossos travesseiros quentes e macios. Ao contrário. Esta, provavelmente, é a mesma que tapa nossas bocas quando temos vontade de gritar e sair correndo em meio a pesadelos insanos.
É provável que, agora, você esteja se perguntando se não está gastando seu precioso tempo com os devaneios de um louco. Bom, eu não posso garantir que sou normal, nem que esse mundo é normal. Não depois das coisas que vi e que presenciei. O que posso fazer é contar essa história, enquanto meus dedos trêmulos alternam entre a xícara de café e as teclas desse velho notebook que a tanto tempo me acompanha.
Para tal, é necessário que você saiba de algumas coisas primeiro, a começar pelo meu nome. Chamo-me David Carlutti. Dr. Carlutti no meio acadêmico. Apenas Davi para os amigos. E, simplesmente, O maluco para os meus odiosos vizinhos que não apostariam um real na minha sanidade mental. Você pode me chamar da maneira que preferir. Contudo, espero (espero de verdade) que não opte pela última opção.
Quanto ao relato das coisas que se sucedem, tentarei ser breve (dentro do possível, é claro), até porque, não sei quanto tempo de vida me resta.
Tudo começou no dia em que conheci Ana Lúcia. Ah, minha Ana, minha Aninha, a garota dos olhos cor de céu e cabelos brilhantes como o sol… Apesar da aparência de anjo, na cama ela era fogo. Quente como lava, picante como pimenta, e depravada como uma libertina. Nossa sexualidade e imaginação para inovar era um repertório constante, um texto que, ao invés de ponto final, recebe reticências ao fim de cada capítulo. O barulho que produzíamos dentro das paredes deste mesmo loft, eram tão intensos (e quem sabe tão sobrenaturais) quanto os barulhos inexplicáveis que hoje ocorrem com tanta frequência.
E quando esses barulhos ocorrem, dona Lucélia, aquela velha nojenta que não faz outra coisa senão xeretar a vida dos vizinhos, começa a grunhir como uma porca, e às vezes, chama a polícia para ver o que está ocasionando tamanha poluição sonora.
— É ele, é ele… — ela grui, grasna, rosna, quando os homens de farda chegam — Esse sem vergonha bebe e fica de farra, batendo nas paredes e, às vezes, se dá a ousadia de tocar piano em plena madrugada.
Os policiais, então, entram em meu Loft e, não há ninguém além de mim. E também não há piano algum. Se não fosse pelos demais vizinhos que atestam os relatos da velha como verdadeiros, a maluca da história certamente seria ela.
Bom, a essa altura eu não preciso dizer que eu odeio Lucélia. É provável (e até lógico) que você já tenha notado e, se não, quero aproveitar para acrescentar que, às vezes, ela também ri como uma hiena. É… pior do que isso, só a sombra.
Quanto a Ana, nosso namoro não durou muito. Apenas o suficiente para descobrirmos que nascemos um para o outro. Embora eu não tenha olhos azuis e meu cabelo pareça uma touceira ao vento, também tenho lá meus encantos. Ana sabia disso, por isso ela abriu aquele sorriso cheio de dentes quando me viu no Beco 34, uma cafeteria aqui do bairro.
Ela era atendente e usava um boné que era um encanto.
Bom, talvez você esteja pensando: atendente sorri para todo mundo. Ah, é verdade, mas… comigo foi diferente, tanto que naquele mesmo dia, às 19h40, logo depois de ela sair do trabalho, já estávamos se pegando no meu Ford Fusion (o meu querido besourão). À primeira vista, talvez Ana lhes pareça uma moça fácil, mas não era. Acontece que, como eu já disse, eu tinha meus encantos e um deles era a lábia. Eu era tão convincente nas coisas que dizia que, não seria de se admirar se algum dia eu convencesse Bill Gates a vender todo o seu patrimônio para investir na criação de formigas transgênicas.
Se a sombra não tivesse chegado antes… quem sabe eu tivesse conseguido.
Foram dias perfeitos. Para ser sincero: foram os melhores. Eu ia fazer trinta anos na época e ela tinha acabado de completar vinte dois. Ela sonhava em ser enfermeira em um grande hospital e eu… eu sonhava em ser um grande escritor e escrever com a maestria de William Shakespeare, ou com a mesma pegada psicológica de Clarisse Lispector. Mais tarde, eu saberia que isso era impossível. Deus dá dons diferentes as pessoas, e o meu dom era amar Ana Lúcia com todas as forças.
No início, logo que ela veio morar aqui, não tínhamos muito tempo (não tanto quanto gostaríamos) para curtirmos juntos, mas aproveitávamos muito bem o tempo que tínhamos. Íamos ao cinema, tomávamos sorvete na praça Gustavo Langsch, íamos aos melhores barzinhos e, claro, infernizávamos muito a dona Lucélia. Mesmo quando nossos corpos suados pediam uma pausa para a água, Ana não perdia a oportunidade de gritar e dar mais alguns tapas na parede.
As coisas iam muito bem até que… a sombra caiu sobre nós!
Começou pequenininha e… material. Naquela época, a sombra era algo palpável que usava calças de sarja, barba por fazer e sorria tanto quanto um vendedor das Casas Bahia. Mas ele não vendia móveis ou eletrodomésticos. Ele vendia café, salgados, e… bem, na verdade, não vendia. Ele servia. Servia no Beco 34 e passava o dia mostrando a minha mulher como seus dentes eram bonitos e perfeitos.
Não era uma maravilha? Bom, às vezes é preciso ser irônico, senão a gente surta.
Mas
não pense que a sombra é humana. Ela assume muitas formas, e uma delas é A GARRA com dedos que mais parecem cutelos sombreados e que ACABARAM DE REFLETIR na tela do notebook enquanto escrevia… Foi preciso fazer uma pausa para outro café, e cá estou eu de novo. Já estou na terceira xícara, e se essa garra não me pegar, e nem meu coração explodir antes do fim da história, já fico contente.
Prosseguimos: eu sugeri a Ana que trocasse de emprego, e foi aí que as nossas brigas começaram. Pela primeira vez, ela se dirigiu a mim usando adjetivos nada gentis, como egoísta, possessivo, machista e tantos outros que nem me lembro. No fim das contas, ouvir todos aqueles insultos calado acabou valendo a pena. Ana pediu as contas na Beco 34 e foi trabalhar numa padaria do bairro: Pãezinhos do Turco. Com o dinheiro que ela recebeu, pagou um milk-shake no centro e tudo voltou ao normal.
Mas não por muito tempo…
Eu nunca tive emprego fixo e, naquela época, estava traduzindo alguns romances quando tive a brilhante ideia de escrever um livro. Ele se chamaria “A Garra e o Pêndulo”, e até então era isso. Tinha um título e eu sabia que o restante viria, como que num passe de mágica. Conversei com Nestor Ferricelli, um agente literário que conhecia da Universidade, e, com a lábia de sempre, o convenci de que meu livro tinha tudo para ser o mais novo best-seller da década, e talvez do século. No fim, brindamos cada um com sua caneca de chopp na Taberna, uma das melhores lanchonetes da Universidade.
Mas a sombra sempre volta…
Seu aspecto ainda era humano e bastante intelectual. Tinha o irritante costume de usar a palavra “obséquio” de cinco em cinco minutos, e seu bigode era tão ridículo quanto aquele parente desafinado que canta no karaokê aos domingos. O nome dele era Alfredo Batista Borges, e segundo rumores, também estava escrevendo um romance. O objetivo dele era simples: ser agenciado por Nestor Ferricelli. As pretensões de Nestor também eram simples: agenciar apenas um escritor.
Começou uma corrida contra o tempo. Eu escrevia durante todo o dia, durante todos os intervalos e acabei esquecendo de um princípio básico da escrita (aliás, eu nem o conhecia): escritor não inventa a história. Ele apenas a transcreve para o papel. No ímpeto, na pressa de acabar o romance antes de Alfredo, acabei inventando muita coisa, e coisas ruins, superficiais e sem nexo. Quando Nestor leu minha história, esta tinha mais furos do que uma peneira. Eu tinha criado mais buracos negros num maço de trezentas laudas do que Deus havia criado quando formou esse universo em que vivemos.
E esse foi o fim de uma carreira de escritor que nem havia começado.
Como eu sabia que a culpa era da sombra? Eu a vi nos olhos de Alfredo, bem como vi aqueles tufos de pelos sobre a sua mãozona flácida de veias salientes. Também sonhei com essa garra por diversas vezes, e, em cada sonho ela tinha uma forma diferente. Era igualzinha a esta que acaba de refletir na tela, e que quase me tocou de novo.
Mas foquemos na história.
Sabe o Pedro (acho que ainda não dissera o nome dele)? aquele rapaz da calça de sarja, que distribuía sorrisos igual o Papai Noel distribui balas (porém, o ano inteiro)? Se você acha que ele voltou, bingo! Você acertou. Adivinha com quem ele passou a trabalhar? Se você disse Ana, diga bingo! Você acertou de novo.
Acho que as pessoas eram imunes ao cheiro dele, porque, para mim, ele tinha ranço insuportável de morte. Era um cheiro pútrido, como o de corpos em decomposição, igualzinho ao que sinto aqui no loft, e, se não fosse o ar-condicionado para expelir esse odor, eu já teria cuspido meu estômago para fora do corpo.
Mas como eu me livrei dessa?
Eu não me livrei. Ana fugiu com o filho da puta para algum lugar distante daqui. Tão distante que eu nunca mais ouviria falar dela. No início, eu ameacei quebrar a cara do Turco se ele não me dissesse para onde os ex-funcionários tinham ido. No fim, eu descobri que a única coisa que ele sabia de verdade era fazer pão. Restou-me então, de físico, apenas as roupas dela e um envelope sobre a cama. Dentro dele, duas notas de cem reais e um bilhete onde se lia:
“Cansei! Esse dinheiro é pra ajudar nas contas de água e luz.”
E isso foi tudo. Sequer um “adeus, até nunca!”
…Lembrar disso é… perder o medo e… desejar que a garra apareça, mas agora ela não vem. A desgraçada só aparece quando estou com medo… filha da puta!
… Voltemos a história.
Afoguei minhas mágoas nos trabalhos acadêmicos. Concluí minha dissertação de mestrado e iniciei um doutorado em literatura ocidental. Durante quatro anos, me abdiquei de sexo, me abdiquei de notícias externas ao meu doutorado (embora algumas me fossem empurradas goela abaixo, como a notícia de que Alfredo B. Borges se tornara o best-seller da década, com o livro “A sombra maldita”), me abdiquei de tomar café no Beco 34, de ir a Pãezinhos do Turco, de ir à praça Gustavo Langsch e a tantos outros lugares. Mas teve algo que não me abdiquei. Não porque não quis, mas por que não consegui me abdicar dela: a sombra!
Currículo lattes: …doutor em Literatura Ocidental…
Enfim, eu peguei o canudo. Agora eu era o cara. Mas logo descobri que não era! A cabeça vazia me levou a beber pelas manhãs e logo eu estava bebendo às tardes também. Depois à noite, e quando me dei conta, eu já bebia mais do que um Opala 1970. Bebia uísque. Primeiro do bom. Depois, aquele que o meu dinheiro podia comprar. Primeiro, no bar do Tonho. Depois em casa, na solidão do meu Loft. Eu disse solidão? Quem dera!
Meu encontro físico (aquele que mudou minha vida e privou-me das noites de sono) com a sombra, aconteceu há exatos cinco dias. Era 23h45 e eu cruzava em frente à porta de Lucélia quando algo me chamou a atenção. A porta estava aberta. Ou melhor: escancarada.
Não que eu me importasse com ela, mas havia algo de estranho no ar. A megera não costumava abrir aquela porta à noite (exceto, em raras ocasiões, como quando a polícia chegava para reclamar dos meus barulhos). Tomado pelo mal que assola a humanidade, a curiosidade, tomei a decisão da qual eu me arrependeria pelo resto de meus dias: entrei no Loft da velha.
— Olá… tem alguém aí? — perguntei, imaginando que ela pudesse estar no banheiro. Mas não estava! A porta fechou-se abruptamente atrás de mim, fazendo-me saltar sobre o sofá da velha e cair de quatro no tapete felpudo e arredondado no centro do Loft. Havia um ranço ali, um ranço que eu conhecia, o mesmo que sentira em…
Eu ainda estava olhando para o chão quando ouvi outro ranger de porta, suave, lento, perturbador. Quando me arquei para a frente, só via a porta do banheiro, mergulhada na escuridão profunda. Como explicar pra velha o que vim fazer aqui? Cheguei a pensar (esbanjando tolo constrangimento), mas quando vi o que vi, as palavras me faltaram. Os pensamentos se perderam no mesmo horror que estampava meu rosto. Embora não tivesse um espelho em minha frente, podia sentir minhas pupilas dilatando, bem como a face que se enrugava numa expressão de incredulidade e horror. O puro horror! Era como se aquela escuridão tivesse tragado o velho Davi com toda sua coragem e juventude, e no lugar, tivesse deixado um homem em frangalhos, de face rubra e pernas trêmulas.
O que vi foi a velha Lucélia emergindo da escuridão, mas… a cabeça dela estava pendida sobre o pescoço e os pés… meu deus! Os pés não tocavam o chão, parecia um fantoche. Como podia? Foi então que eu vi algo ainda pior. Vi que, ao contrário dos fantoches, não eram linhas manipuladas por um ventríloquo que a seguravam, mas… uma garra.
Como se o mundo tivesse perdido os sons, passei a escutar apenas a minha respiração arquejante e o coração que batia tão acelerado quanto o de um cardíaco à beira de um colapso. Se aquela garra que segurava Lucélia, como se ela não pesasse mais do que uma galinha velha, me pegasse também,
eu provavelmente não pesaria mais do que um cachorro morto. Seria o banquete de alguma aberração que eu nem sabia o que era. Minto. Era a sombra!
De repente, a velha caiu como uma bola de papel amassada, num baque surdo. Topei com os olhos dela e vi que eles estampavam horror semelhante (ou pior) ao meu. A pele da face estava pálida e os lábios secos e rachados pareciam ter empedrado naquela posição de alguém que grita por socorro. Mas ela não gritava! E nem gritaria! Seus olhos estavam revirados (e parados) nas órbitas como adornos em um crânio. Nesse instante, senti como se um enxame de vespas invisíveis tivesse a me picar as pernas. Meus olhos arregalados eram o reflexo da dor, do medo, da morte anunciada.
Enquanto isso, a garra se movia na minha direção, lenta, lenta, angustiantemente lenta… Desta vez, ela não tinha pelos ou qualquer tipo de composição aquosa ou alienígena como nos filmes hollywoodianos. Era pior. Muito pior! Ela tinha um aspecto indefinido, impalpável, de sombra, um aspecto de alma ou… de algo que as devora.
As lâmpadas oscilavam, e a cada oscilação, a garra crescia à minha frente. Minhas pernas eram como crianças rebeldes que se negam a obedecer. Também pudera, a dor das picadas era tão intensa e verdadeira que eu podia ouvir o zunido das vespas em meus ouvidos, e se meus olhos não tivessem tão vidrados naquela visão horrenda e demoníaca, provavelmente eu tivesse as visto também.
Como um passageiro paciente, a esperar no ponto de ônibus, eu esperava pelo instante em que aquela coisa me arrebataria para seu mundo de trevas. Enquanto isso, a lâmpada que oscilava, decidiu-se pelo fim e, de repente, o quarto mergulhara na penumbra. A única luminosidade vinha das janelas de vidro entreabertas nas quais as cortinas dançavam ao vento. E devia ser isso mesmo, já que eu tinha a leve impressão de ouvir, abafado pelo zunido das vespas, uma canção de morbidez agoniante e que parecia vir direto das profundezas de um mundo distante.
Depois disso, algo mais estranho aconteceu. Antes que eu pudesse ver o rosto da sombra, o mundo ficou escuro e eu não lembro de mais nada. Quando acordei, estava aqui, em meu apartamento. Não sei se escapei ou se a sombra é quem me trouxe. Talvez, por algum motivo, até agora inexplicável, a sombra quis que eu escapasse. Talvez, ela própria tenha me trazido para cá (eu realmente não sei). O fato é que, depois do ocorrido, eu não dormi mais. Não consigo! Não posso! Não consigo! Não posso! Não consigo! Não posso!…
Como se toda essa bizarrice não bastasse, eu fui acusado pelo assassinato da velha. O bêbado ensandecido que invadiu a casa da vizinha e a matou. O maluco que faz barulhos a noite e põe a culpa em uma sombra. O maluco que toca piano nas madrugadas. O maluco fracassado que foi abandonado pela mulher por conta de suas maluquices. O maluco que não deu certo em nada.
Como eu sei disso?
Dois policiais estiveram aqui. Eles me levariam preso, na certa, mas, agora, estão mortos. Mortinhos! Um está sentado no sofá, com os olhos estralados como se me fitasse. O outro está aos meus pés, com a boca jorrando sangue e tem a marca de uma garra carimbada no pescoço.
Por que ainda estou vivo? Não sei. Talvez, ela queira me punir com a vida. Eu realmente não faço ideia. A polícia não vai deixar assim. Claro que não! Logo aparecerão mais policiais batendo a minha porta.
A mim, só resta esperar.
Enquanto isso, bebo mais café.