A Personagem
Sinopse: Uma fã alucinada. Uma identidade trocada. Carol acredita que o pacato professor em sua frente é o ator que assassinou sua personagem favorita na novela Coração às Avessas. E ela não vai sair do apartamento dele até que a justiça, do seu próprio modo, seja feita.
Gênero: Suspense, Comédia de Humor Ácido
Tags: Thriller Psicológico, Metaficção, Sequestro
Aviso de Conteúdo: Esta história contém violência, linguagem imprópria e situações de tensão psicológica.
A ponta fria do revólver está colada à cara de Nicolas. A garota de olhos flamejantes que empunha a coronha segura um cigarro entre os dedos fininhos, de unhas dum vermelho vivo. Ela deixa a fumaça sair devagarinho, empesteando o apartamento com aquele cheiro insuportável de cigarro paraguaio. As narinas alérgicas de Nicolas começam a se repuxar, ensaiando espirros.
Ela está tomada de sentimentos diversos. Amor e ódio são os mais visíveis. Amor que sente por Pietro, sua personagem preferida na novela Coração às Avessas, e ódio por Nicolas, agora seu refém, a quem ela julga ser o culpado pela morte de Pietro.
A verdade é que Carol, a garota com o revólver, erra por duas vezes. Primeiro ao confundir ator e personagem. Segundo porque Nicolas nem sequer é ator. Trata-se apenas de alguém extremamente parecido com Caio Sintra, o galã que interpreta o assassino Jorge açougueiro na trama escrita pelo escritor Jonas Aranha, que vai ao ar todas as noites na TV Metrópole.
Há cerca de meia hora, Nicolas telefonara para uma pizzaria; ele estava na companhia de Júlia, sua namorada e, por sorte, quando a entregadora chegou com a pizza, Júlia tinha ido na casa da vizinha para devolver meia dúzia de ovos que ela pedira emprestado na véspera. Se não fosse por isso, agora seriam dois reféns, ao invés de um.
Assim que pegou a pizza, Nicolas a destampou e se inclinou para sentir o aroma.
— Nada mau! — disse ele — Quanto custa mesmo?
— São 47 reais, chefe — disse ela.
Nicolas apalpou os bolsos. Vazios.
— Vou pegar o dinheiro, não demoro. Me espere aqui.
Espere aqui? Pensou assim que virou as costas para ela. Que coisa idiota para se dizer. É claro que ela vai esperar! Por que ela não esperaria?
E a resposta veio com o leve toque do revólver em sua nuca.
Cá estão eles, sentados no sofá, encarando-se. Os olhos da garota já não parecem simpáticos como antes.
Nicolas está com a mão no peito, pensando no marcapasso que colocara há pouco mais de um mês.
— Então, seu pilantra, safado! … — diz ela. — Como se sente no papel de vítima?
— Com uma puta vontade de comer pizza — diz ele, buscando manter o bom humor; está rindo agora, um riso que evolui para um gemido, seguido de uma careta de dor. — A de strogonoff está com um cheirinho… — hesita, ao ouvir a moça engatilhar a arma.
— Pietro já não pode sentir o cheirinho de strogonoff, nem de porra nenhuma. Tudo por sua culpa. Sua culpa!
Nicolas engole em seco. A ficha está começando a cair.
— Olha, você tá confundindo as coisas, eu não sou…
— Ah, você não é o Jorge açougueiro, acertei? Era isso que você ia dizer? — Ela fala tão depressa que gotículas de saliva saltam da sua boca, indo parar na camiseta de Nicolas. — É isso que vocês atores sempre dizem — franze o nariz. — “Estava apenas interpretando a personagem”. Porra nenhuma! Até minha avó seria mais criativa para inventar uma desculpa.
A resposta não precisa ser criativa, moça. Precisa ser verdadeira e isso basta, pensou Nicolas, o pomo de adão subindo e descendo, a boca numa secura só.
— Isso tudo é um engano, moça! Eu não sou o Caio Sintra. Olha bem pra mim… eu nem sei interpretar. Sou professor em tempo integral, dou aulas de português e espanhol no ensino médio. Já fui confundido com esse tal de Caio Sintra, mas quando as pessoas olham bem pra mim, logo veem as diferenças. Olha! Olha bem! — Ele baixou a lateral da calça e depositou o dedo sobre uma mancha escura. — Isso é de nascença. Aposto que o Caio Sintra não tem uma igual…
— E como eu posso saber disso?
— As revistas, ué. As revistas para o público feminino…
— Tenho cara de quem compra revista pornográfica? Tenho?
Nicolas teria enrubescido se o corpo não estivesse trabalhando para mantê-lo pálido.
— Moça, moça… isso tudo não passa de um grande equívoco. Será que não percebe?
Carol começa a rir e quase se engasga com a fumaça. Ela ainda impunha o revólver, a mão inquieta-se num vaivém macabro. Nicolas vê o cano oscilar, ora apontando para a sua barriga, ora para o seu rosto.
— Ai, ai — ela tosse, abana a fumaça e continua: — Você diz que não sabe interpretar… então como se chama isso que você tá fazendo?
— Eu…
— Porra nenhuma! — ela explode. Carol é um misto de sentimentos e expressões difusas. — Você é um vacilão cara! Um puta dum vacilão!
Nicolas abre a boca para falar, mas é interrompido pela campainha.
O cigarro de Carol para antes de chegar à boca, e o revólver dá uma leve escorregada na palma. Nicolas acha que Carol está assustada e que aquela é talvez a melhor oportunidade que terá para reagir. Mas ele também sabe que não é um herói das histórias em quadrinhos que ele coleciona, e que seu coração está tão fodido que a coisa mais sensata a se fazer é segurá-lo com as duas mãos para que não escape pela boca.
— Vamos! Levanta! — Carol aponta a porta com o revólver, enquanto termina o trajeto do cigarro até a boca, traga, prende, e solta, formando uma nuvem de fumaça ao redor do rosto que desabrocha num imenso sorriso de olhos vermelhos.
Nicolas se coloca de pé, mas hesita em abrir a porta. Ele imagina que seja a namorada… Não, ele não imagina, ele sabe que é a namorada. Por Deus! Seria melhor deixá-la fora disso.
— Você é surdo cara?! Abre a porra da porta!
Nicolas caminha em direção a porta, arrastando os pés, exatamente como fazem os seus alunos na volta do intervalo. Num sobressalto, Carol se levanta atrás dele, e Nicolas volta a sentir o aço frio do revólver roçando-lhe na nuca.
Ele leva a mão à maçaneta e hesita. Talvez não devesse abri-la. O que aconteceria? Carol puxaria o gatilho? Se puxasse o disparo certamente faria com que Júlia corresse e se salvasse. Mas e quanto a ele?…
Não. Ele não quer pensar nisso. Acha que seria melhor abrir a porta de uma vez, e passa a ter certeza disso assim que senti a ponta do revólver fazendo pressão contra o crânio.
Ele abre a porta e Júlia já vem entrando, os cabelos desarrumados e soltos sobre as roupas largas de moletom.
— Uau! Adorei o modelito — diz Carol, divertindo-se com as roupas que Júlia usa e que devem ser as roupas do namorado dela, mas o que a deixa verdadeiramente satisfeita é ver todo aquele horror na cara de Júlia. — Deve ser bastante confortável…
— Quem é voc… ?
Carol fez sinal para que Nicolas fechasse a porta.
— Quer tabaco? — Oferece o cigarro para Júlia, num manso sorriso. — Vai te ajudar a relaxar. — E um dia acaba te matando, pensa, mas isso não vem ao caso.
Júlia recua um passo, analisa a garota com a arma.
— Eu sou a Carol — antecipa-se a intrusa, dando de ombros enquanto leva à boca o cigarro recusado por Júlia, e depois continua, encoberta por uma nuvem de fumaça fedorenta: — Você deve ser a namorada e cúmplice desse palerma aí — e vendo que Júlia vai retrucar, Carol explodi de novo: — Porra Nenhuma! Já para o sofá! Os dois! Agora!
O casal obedece. Júlia treme. Nicolas também treme, mas não é de medo. Ao menos não somente medo. Ele está tendo outra crise de arritmia. Das brabas. De repente sua visão fica turva e ele tem a impressão de ver um secador de cabelos na mão de Carol. Um riso enigmático lhe surge no rosto quando ele imagina Carol em um daqueles quase-sempre-idênticos comerciais de televisão em que a atriz joga os cabelos de um lado para o outro; a câmera nunca mostra, mas todo mundo sabe que a atriz está na frente de um ventilador.
— Tá achando graça de quê, palhaço? — Carol engatilha o revólver. Sua cara é um saco de rugas nervosas e em nada se parece com uma atriz de comercial de secador de cabelos.
Nicolas não tem certeza, mas acha que aquela não foi a primeira vez que Carol engatilhou o revólver. Mas quando foi que ela desengatilhou aquela porcaria? Nicolas acha que talvez tenha sido durante uma de suas crises. Mas pouco importa… se ela fez isso, certamente não está convicta do que veio fazer aqui, pensa e torce para que esteja certo.
— Por favor, moça! — diz Júlia. — Ele já teve dois infartos e sofre de arritmia grave…
— Cala a boca sua vaca! — grita Carol, cuspindo de raiva. — Você pensa que o Pietro não sofreu? … E eu? Você tem noção do quanto eu sofri quando o seu namoradinho picou ele todo? Você não tem noção! Aposto que você é só mais uma dessas vacas que apoiam o namoradinho ator em tudo o que faz, não é?
— Ator? Olhe só pra esse apartamento! — retruca. — Acha mesmo que se ele fosse o galã da novela mais bombada do país ia morar num apartamento como este? Olhe para os lados! Há quanto tempo essas paredes não veem tinta? Se toca, maluca!
Nicolas arregala os olhos. Em parte por surpresa, diante da reação corajosa e repentina da namorada. E parte porque a observação não lhe agrada, embora tenha de admitir que se trata de um bom argumento. Apesar de todos os problemas do apartamento, gosta muito daquela moradia. Há mais de dez anos que reside ali, e não pretende se mudar tão cedo.
— Porra nenhuma! Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! … — Carol se põe a caminhar de um lado para o outro. Leva as mãos ao redor da cabeça, sem soltar o revólver que, por acidente, dispara, quase explodindo os tímpanos dos presentes.
Num salto, Júlia se lança em cima dela.
— Quem é a vaca agora sua piranha?! — grita, as gengivas aparecendo, os dentes cerrados como os de um cão.
As duas caem, rolando de um lado para o outro. O revólver também cai, a cerca de dois metros de distância. Nicolas se retorce no sofá. Ele adoraria ajudar, mas não pode nem assistir a briga. O mundo está escuro e os sons são quase inaudíveis. Ele sente que está morrendo e que, mesmo que Carol não lhe acerte nenhum tiro, ainda assim, só sairá vivo dali por um milagre. E isso não é tudo:
Nicolas ainda ri com a imagem do secador de cabelo pendurada no cérebro.
A briga se estende por quase dois minutos e se desenrola no chão do apartamento. Nicolas não vê nada além de duas sombras disformes que às vezes parecem ser uma coisa só. Daquela gritaria abafada, de repente, se ouve um berro agudo e as sombras se descolam. Forçando as vistas, Nicolas vê que uma das sombras corre em direção a arma, enquanto a outra continua deitada no chão.
— O que foi isso sua vagabunda? — grita Carol, já com a arma em punho. — Tá querendo morrer, desgraça?
Júlia leva a mão ao seio. Ela dá uma olhada com receio de que esteja sangrando onde Carol a mordeu, mas não está. Mesmo assim, ela sente como se os dentes da garota ainda estivessem ali, esmagando suas carnes.
Carol levanta a blusa, revelando uma pochete. Enfia a mão nela e retira uma fita adesiva de 45 milímetros de largura.
— Tome — ela atira a fita no colo de Júlia. — Quero que amarre esse infeliz.
— O quê? … Não!
— Porra nenhuma! — Carol acende outro cigarro, sorri como se fosse uma menininha no parque de diversão, e quase esquece que está com o revólver em riste. Quando se lembra, ela retoma o semblante de menina má. — Não estou pedindo. Estou mandando!
Júlia não diz nada. Ela está medindo a garota de cima a baixo. Será que a filha da puta teria coragem de puxar o gatilho? E como resposta, ela sente o peito latejando no local da mordida.
Sem opção, Júlia se põe a enrolar a fita em volta de Nicolas. Ela hesita diversas vezes; está tentando entender por que Nicolas ri quando deveria estar se lamentando. Até ela sente vontade de dar um soco nele para que pare, mas conclui que deve ser uma questão de nervos. Quando ela termina, a impressão que se tem é de que ele acabou de sair de dentro de uma máquina de shrink. Não está amarrado; está embalado para transporte.
Terminado o serviço, ela se volta para Carol.
— E agora? — diz. — O que pretende? Vai me amarrar também? E depois? Vai matar geral…
— Cala a boca! Pelo amor de Deus, cala a boca! — Carol volta-se para Nicolas que ainda ri. — Como é que você aguenta? Essa mulher é uma matraca.
Nenhuma resposta.
Carol suspira, acende outro cigarro e se senta numa poltrona, de frente para os outros, cruza a perna e repousa a arma sobre a coxa.
— E você, Júlia — parece ter mudado de humor repentinamente, após uma tragada —, que faz da vida?
Júlia hesita. Seus olhos encaram os olhos vermelhos de Carol, e depois fogem para um ponto qualquer da parede.
— Sou garçonete no centro…
Carol começa a rir, primeiro devagar, depois, compulsivamente, engasgando-se com a fumaça.
Tosse, tosse, tosse, e com a voz rouca diz:
— Corta essa. Você acha que eu não te conheço? Você é diretora de novela. Foi você quem mandou esse teu maridinho imundo matar o Pietro, não foi? Eu amava o Pietro. Era minha personagem favorita.
Júlia suspira, crava os olhos em Carol.
— Em primeiro lugar, meu marido não é ator. Quem interpreta Jorge, o açougueiro, é Caio Sintra, que deve ser no mínimo dez anos mais jovem do que o Nicolas. Em segundo lugar, eu sou apenas diretora da novela, quem cria o roteiro é o Jonas Aranha. Meu trabalho é seguir o roteiro. Um roteiro pré-definido. Qual é a parte difícil de entender?
— Ué, pensei que fosse garçonete? — Carol desanda a rir. Um riso frouxo, vitorioso.
Júlia não diz nada, mas seu corpo fala por si. Ela está vermelha, rangendo os dentes, e seus olhos voltaram a fitar um ponto qualquer da parede.
A campainha toca de repente. Carol continua fumando. A expressão é de uma turista despreocupada em meio às férias de verão.
Júlia olha para ela, interrogativa. Carol indica a porta e Júlia se dirige até lá, com a mira do revólver a um metro de suas costas.
— Dá para apontar essa coisa para o outro lado?
— Até que dá, mas não tô com vontade. Sabe como é, não sabe?
Ela abre a porta. Diante dela está um homem de meia-idade, de postura rígida, vestindo uma camisa social ligeiramente amarrotada. É Adriano, o síndico.
— Boa tarde… — ele diz, hesitante. — Tá tudo bem por aí? Alguns moradores estão reclamando do barulho.
Carol sorri e faz um gesto para que ele entre.
— Pode vir, síndico, sem cerimônia.
Adriano franze a testa, parecendo medir a situação antes de finalmente dar um passo à frente. Mal atravessa a soleira, Carol fecha a porta atrás dele.
— O senhor deve saber como funciona, não é? Melhor cooperar.
Carol retira mais um pedaço de fita adesiva da pochete e entrega para Júlia, que começa a enrolar os braços do síndico. Ele suspira profundamente, como se estivesse ponderando quantos problemas ainda precisaria resolver naquele prédio.
— Todo dia é alguma coisa… — ele murmura.
Minutos depois, ouve-se o barulho de sirenes. Carol vai à janela, arrasta a cortina e a claridade alaranjada do fim da tarde invade o apartamento. O prédio está cercado de viaturas e não para de chegar mais. Ela continua sorrindo.
Não demora muito, a campainha toca. Ela leva o indicador aos lábios, exigindo silêncio de todos ali dentro. Quando a campainha para é a vez do telefone tocar. Ela fuma tranquila, sem pressa. O telefone fica mudo, e é só na segunda chamada que ela resolve atender.
— Pronto — diz.
— É a senhorita Júlia?
— Não! Júlia tá ocupada sob a mira do meu revólver. Ligue mais tarde. Ah, se vocês resolverem invadir, tejam cientes que precisarão de uma nova diretora pra novela das nove. Eu tenho chumbo suficiente pra explodir umas dez cabeças.
E desliga.
Os minutos que se seguem são minutos tensos, especialmente para Nicolas que está à beira de um ataque cardíaco. Júlia reflete se deve ou não se jogar sobre Carol novamente. Talvez ela não tenha coragem de atirar, pensa, se ela tivesse já teria feito isso. Mas e se… e é esse “se” que a impede.
O telefone volta a tocar, uma, duas, três vezes.
— Tenho uma exigência — Carol vai logo dizendo. — Quero falar com Jonas Aranha. Se ele não tiver aqui em uma hora, eu estouro a cabeça do primeiro refém.
E desliga.
— Ei, acho que esse cara tá passando mal — diz Adriano.
— Pelo amor de Deus moça — choraminga Júlia, ajoelhando-se em frente ao namorado, segurando a mão dele entre as dela. — Ele vai acabar morrendo moça! Por tudo o que há de mais sagrado, me deixe soltar ele!
— Ele vai morrer de qualquer jeito — diz Carol, irredutível.
— Não se a polícia acabar com a sua raça antes…
— Porra nenhuma! A polícia vai ficar pianinha.
— Por quê? — Júlia respira fundo, tentando restaurar as forças; busca empregar um tom irônico que também é um tipo de força: — Só por que você tem uma arma?
— Porra nenhuma! Eu tenho três reféns, e logo terei quatro, sua vaca burra!
O telefone toca. Dessa vez Carol atende rápido.
— Jonas Aranha tá aqui? — pergunta.
Por alguns segundos, ela não ouve nada além do chiado de alguém que respira do outro lado da linha. Ela espera, paciente, até que o silêncio seja quebrado.
— Ele não pôde vir, mas nós podemos conversar…
— Porra nenhuma! Tá pensando que sou idiota? Me retorne somente quando Jonas Aranha aparecer.
Ela devolve o fone com violência à base, voltando a se sentar na poltrona. Ela fuma outro cigarro, a arma sobre a coxa, a expressão distante, embora os olhos repousem sobre Júlia, a única refém que não está amarrada.
— Quanto tempo você pensa que isso vai durar? — pergunta Júlia.
Carol sacode os ombros.
— O tempo é o que menos importa — dá uma tragada e solta a fumaça devagar. — Aliás, depois que Pietro morreu, acho que nada mais importa. Nada vale realmente a pena.
— Pietro era uma personagem! A porra de uma personagem! Pelo amor de Deus! Nós somos reais. Veja, nós somos reais — ela faz uma pinça com os dedos e a usa para esticar a pele do braço. — Nós somos reais e Pietro é só uma personagem, cacete!
— Porra nenhuma! Pietro era tão real quanto nós — Carol grita e chora. Agora ela está tremendo, o rosto em brasa e a respiração ofegante. — Aquele merda do Jonas Aranha criou o homem perfeito e… depois… depois ele o matou. Matou quando escreveu… e você ajudou quando gravou a cena… e seu namorado fez o trabalho sujo quando interpretou o Jorge açougueiro, cravando a porra da faca no coração do Pietro, Pietrinho, meu amor!!! Vocês não passam de assassinos cruéis. CRUÉIS! Tá me ouvindo? Uns filhos da puta é o que vocês são!
Júlia fecha os olhos e suspira novamente. Agora com mais profundidade.
— Vou dizer pela última vez: meu namorado não é ator. E Pietro é só uma personagem…
Carol engatilha a arma mais uma vez e aponta para a testa de Júlia.
— Fala isso mais uma vez e eu espalho o seu cérebro no chão. O que acha disso?
Júlia não acha nada. E se acha, não diz. É difícil dizer algo olhando para a cavidade de um cano de revólver.
Minutos depois, quando o telefone toca, Carol demora para atender. Ainda está fumando, soltando mais fumaça do que uma chaminé industrial. Ela deixa que o cigarro acabe para só então atender.
— Jonas Aranha tá aqui? — indaga.
— Sim. Ele tá.
— Ótimo! Mande ele subir. E se tentarem alguma gracinha, eu estouro a cabeça do Caio Sintra. Pense em como seria trágico. Teriam que arrumar outro vilão pra novela das nove.
— Você disse Caio Sintra? Ele tá aí?
— Sob a mira do meu revólver. Diga a Jonas Aranha que ele tem cinco minutos pra subir.
E desliga.
Quando Júlia abre a porta, menos de cinco minutos depois, Carol está com a arma apontada para a cabeça de Nicolas, ajoelhado no piso e ainda envelopado, os olhos lacrimejantes, numa expressão confusa entre a tragédia e a comédia. Ele respira com dificuldade.
Jonas Aranha entra devagar. Ele é um homem grisalho, de meia altura, vestido com um blazer elegante.
— Amarre as mãos dele — ordena Carol, assim que Júlia fecha a porta atrás dele.
— Acabou a fita — diz Júlia.
Carol olha para os tênis de Jonas.
— Use o cadarço dele.
Júlia se abaixa e retira o cadarço do pé direito de Jonas. Usa para amarrar as mãos dele.
Carol não presta atenção no desenrolar da cena porque seus olhos estão fitos nos olhos de Jonas. Encaram-se como lutadores num rinque.
— Então você é o famoso Jonas Aranha? — ela ri, soluça, e chora. — Deixe-me ver se adivinho. Certo dia, você acordou, comeu merda no café da manhã e teve a brilhante ideia de matar o Pietro na novela? Cara, esta foi a melhor personagem que você criou. Talvez tenha sido a única.
— Eu, eu…
—PORRA NENHUMA! — ela morde os lábios, enquanto enxuga as lágrimas que não caem, transbordam. —PORRA NENHUMA! Você é um monstro, Jonas Aranha! Um monstro terrivel e feio!
Carol anda de um lado para o outro. As mãos ao redor das têmporas, o revólver frio na pele quente. A expressão acabada, de quem chegou ao fundo do poço, e não sabe como sair dele.
— Me dê um bom motivo pra não atirar em você, Jonas Aranha.
— Sou a única pessoa que pode trazer o Pietro de volta.
Pela primeira vez, Carol não sabe o que dizer. O rosto afogueado, o olhar sonhador, como que suspensa no ar; ela parece refletir sobre o que foi dito.
— Você não tá entendendo. Eu preciso ir ao banheiro — diz Júlia, juntando as mãos sobre o colo.
— Porra nenhuma!
— Mas eu tô me mijando, cacete — Júlia espreme os lábios, dá pulinhos. — Por favor, por fav…
— Tá! Chega! — Grita Carol. — Você vai, mas eu vou com você. Anda.
Sem perda de tempo, Júlia caminha em direção ao banheiro. Carol a segue, sem se preocupar com os outros, já que estão (ou deveriam estar) todos amarrados. Então ela ouve o engatilhar de um revólver. Quando se volta para trás, Jonas Aranha está em pé, apontando-lhe um .38.
Júlia já não precisa fingir. Ela corre para abrir a porta, e assim que o faz, outros policiais entram no apartamento. Enquanto isso, Jonas algema Carol.
— Parabéns soldado Martins! — um policial alto e ombrudo se dirige a Jonas Aranha. — A ideia de se passar por Jonas Aranha foi ótima. Você a enganou direitinho.
— Isso não teria dado certo se Júlia não tivesse deixado o cadarço frouxo em meus pulsos — diz o soldado Martins, sorrindo para Júlia, que faz pouco caso. Ela parece mais preocupada com o namorado que está tendo um infarto.
Uma equipe de bombeiros entra no apartamento para prestar socorro a Nicolas. Júlia se afasta. Seus olhos cruzam com os olhos de Carol que está sendo retirada do aposento por dois policiais, algemada.
Ela ainda sorri, pensa Júlia, numa ânsia de ir até lá e arrebentar a cara da infeliz. A filha da puta ainda sorri.
— A pochete, Júlia! — ela grita. — Olhe na pochete. Por favor, olhe na pochete!
Intrigada, Júlia vai até a pochete antes que seja impedida pelo esquadrão antibombas ou qualquer coisa do tipo. Dentro da pochete, encontra papéis e mais papéis. Chove policiais em sua volta, todos levemente interessados. Quando Júlia se dá conta do que está acontecendo, leva as mãos à boca.
Não é possível! Júlia não pode acreditar no que acaba de ler.
É… insano!
O que ela tem em mãos é o currículo de uma jovem atriz, candidatando-se a uma vaga na próxima novela dirigida por Júlia. Além do currículo, Carol Schultz deixou, também, algumas folhas que pareciam ser o roteiro daquilo que acabara de acontecer. Carol não parecia saber exatamente quem e quantas pessoas que apareceriam no apartamento, mas sabia como deveria agir quando elas aparecessem. Ali naquelas folhas estava descrito como ela se dirigiria a Júlia, como seria suas expressões faciais, desde o riso ao choro, bem como o repetitivo bordão “porra nenhuma”. Soltando as folhas sobre o sofá da sala, Júlia corre para a janela e vê Carol sendo introduzida no camburão da Brigada Militar. O veículo é posto em movimento até desaparecer no trânsito sempre caótico da metrópole. Júlia pensa no potencial da garota. Seria ela a próxima vilã da novela das nove? A sucessora de Jorge açougueiro?
Onze dias depois, Nicolas recebe alta do hospital. No caminho de casa, toma coragem e pergunta:
— E que fim teve aquela moça?
Com uma expressão entre riso e tristeza, Júlia esclarece:
— Ela foi internada num hospital psiquiátrico, mas parece que conseguiu escapar no terceiro dia. Ela interpretou uma médica e saiu pela porta da frente. Dizem que ela ainda tomou cafezinho enquanto conversava com o pessoal da direção. É mole?
Nicolas ri.
— Não me admiro. Aquela moça é excelente atriz. Nem notei que a arma dela era de festim.