A ferroada do escorpião
Sinopse: Depois de ter um emprego negado devido ao seu signo de escorpião, um homem com um passado problemático decide se vingar da recrutadora. O que começa como um sequestro por impulso se transforma em um jogo psicológico brutal sobre destino e livre-arbítrio.
Gênero: Suspense
Tags: Thriller Psicológico, Vingança
Aviso de Conteúdo: Esta história contém cenas de violência gráfica, abuso psicológico e linguagem imprópria.
O escorpião sai da casca
Vilela olha para a ponta dos dedos suados, odiando-se por isso. Por que tem de suar tanto? Não faz nem um minuto que voltou do banheiro, onde lavou as mãos e as secou com papel toalha.
Passa as mãos na calça jeans, e, ao notar que a moça no banco ao lado o observa com o canto dos olhos, sorri para compensar o constrangimento.
A vontade de sair correndo é grande, mas a necessidade de conseguir o emprego é maior. Já está ali há horas, com a ficha 34 no bolso. O candidato 33 está na sala de entrevistas. Vilela é o próximo e a porra dos dedos não param secos!
A porta da sala de entrevistas se abre e um sujeito sai de lá, bufando e cuspindo xingamentos. Não é o primeiro, mas Vilela espera que seja o último.
Vilela é chamado instantes depois. Entra na sala. Senta-se numa poltrona de couro bege, confortável. Márcia, a mulher do outro lado da mesa é uma quarentona boa pinta, do tipo a qual Vilela ofereceria um drinque se estivessem na balada e ele não estivesse tão duro. Mas este não é o caso, e ele mais parece um gatinho acuado diante duma leoa.
Ela parece simpática, mas Vilela não se deixará enganar; conhece a selva das relações trabalhistas, e sabe que aquele sorriso esconde presas poderosíssimas e à espreita para trucidá-lo no primeiro deslize.
Ela está com o currículo dele sobre a mesa. Baixa a cabeça para ler, fazendo a sala mergulhar em silêncio. Ele aproveita para secar as mãos nas laterais da calça.
— Vejo que teve muitos empregos, senhor Vilela.
— Algumas empresas faliram e eu não tive escolha.
— Entendo — diz ela, sem olhar para ele. — Mas a Hoffmann Plásticos LTDA. continua operando. Por que o senhor não tentou emprego lá?
— Porque avaliei as propostas e achei que a Santos Soluções em Papelaria é a melhor opção.
Vilela acha que a resposta foi satisfatória, afinal, Márcia ergue os olhos por trás dos óculos e o encara com momentâneo interesse.
— Eu pensei que fosse pela tua ficha criminal. Mas se a escolha foi tua…
Pronto! Esse é o tipo de coisa que não dá para esconder do contratante.
— Anos atrás eu me envolvi com gente ruim, dona, mas isso já faz muito tempo e eu posso jurar que não há um dia em que eu não me arrependa por isso.
Ela estende a mão espalmada.
— Relaxa. Nós da Santos não ligamos pra esse tipo de coisa. Somos uma empresa inclusiva; acreditamos sobretudo na capacidade de mudança.
Vilela sorri, mas a pele ao redor da boca está toda enrijecida. Gotículas de suor brotam na testa e nas têmporas.
— Aqui diz que o senhor é divorciado. Tem filhos?
— Não senhora.
— Vai à igreja?
— Sou um bom cristão.
A resposta parece convencê-la. Márcia corre os olhos e o dedo pelo papel como se procurasse algo específico.
— Aqui diz que tu tem 34 anos, mas cadê a data de nascimento?
— Ah, perdão! Eu devo ter esquecido deste detalhe. Nasci em 9 de novembro de 1988.
O semblante dela se fecha abruptamente, como se ele tivesse a insultado. Confuso com aquela mudança repentina, Vilela desvia o olhar. Percebe que há uma revista de horóscopo na mesa à direita, e, num nicho atrás dela, uma porção de outras revistas do mesmo formato, provavelmente com a mesma temática.
— A senhora tem uma coleção e tanto.
O comentário não surte efeito em Márcia, que permanece calada e de cara fechada. Num ato desesperado, Vilela comenta:
— Minha mãe ia ficar louca com essa coleção, sabe. Ela também é vidrada nessas coisas de horóscopo.
— Ela também é de escorpião?
— Não. Ela é de libra.
Ela parece gostar da informação. Porém, isso não altera em nada a situação de Vilela. Márcia olha mais uma vez para o currículo, mas não com o interesse de antes. Está apenas cumprindo uma formalidade.
Custa, mas Vilela finalmente compreende. Ter nascido em 9 de novembro faz dele um escorpiano, e a reação descabida de Márcia só pode ter um significado: Ela leva essa coisa de signo a sério demais. Vilela quer mudar de assunto, mas a fala some. Espera para ver o que acontece, experimentando uma mistura de incerteza e esperança. Tem passagem pela polícia, um currículo problemático e uma sudorese fodida; não será a porra de um signo que o fará entrar pelo cano!
— Bem, muito obrigada! — diz ela, sem resquícios de simpatia. — Entrarei em contato quando houver uma vaga.
Vilela não se aguenta: passa a manga do casaco no rosto que verte suor.
— Mas o anúncio fala de contratação imediata.
Ela esboça algo que se parece com um sorriso.
— Isso era lá no começo. O senhor esquece que pegou a ficha 34?
Não há o que argumentar. Seca as mãos na camisa e sai.
É fim de tarde. Vilela enfia a mão na caixinha de correio e retira um maço de correspondências. Nem se atreve a abrir os envelopes. Já conhece seu conteúdo. Entra em casa e os larga sobre a mesa da cozinha, junto de outras cobranças impagáveis que vão formando morrinho, e de caixas de remédio vazias. Sabe que precisa ir ao psiquiatra renovar as receitas, mas só de pensar na burocracia desiste antes mesmo de tentar. Se aquela megera ao menos tivesse considerado seu currículo!
Como era mesmo o nome da infeliz?
Vilela se deixa cair no sofá vazado de rasgos donde sangram pedaços de espuma, como órgãos vitais de um móvel que anseia pela hora do fim, como tudo mais naquela casa: paredes desbotadas, piso trincado, torneira pingando, móveis esfarelentos servindo de refeição para cupins.
Tenta ligar a TV, mas o aparelho não liga, mesmo depois de esmagar o botão liga/desliga do controle várias vezes. Atira o controle na parede, inutilizando-o de uma vez por todas. Passa as mãos pegajosas no rosto, esticando a pele abaixo dos olhos. Que dia! Que dia!
Vai para o banho. A água está fria. Então tudo faz sentido. Seca-se, veste-se e vai conferir o fotômetro junto ao poste. O lacre no disjuntor exibe um aviso de corte por falta de pagamento. Ele pensa no controle da TV, que desta vez não teve culpa de nada.
Suspira e sai pra caminhar, enquanto as ideias correm.
Entra no bar do Manoel, pede um pastel e uma cerveja. Recebe como resposta um olhar desconfiado e um silêncio constrangedor.
— Vou quitar minha conta no fim da semana. Não se preocupe.
— Tu vem dizendo isso já tem meses, filho.
O filho não é apenas uma expressão derivada da diferença de idade entre Seu Manoel e Vilela, mas de um afeto que o sexagenário nutre pelo jovem. Se não fosse por isso, já teria lhe encerrado a conta muito antes daquilo se tornar um enorme prejuízo.
— Desta vez é verdade, Seu Manoel — diz Vilela, já deixando o bar.
— Espere — chama Manoel, quando o outro já está na porta. Retira um pastel da estufa e oferece ao rapaz. — Leve isto.
— Obrigado Seu Manoel, mas não. O senhor tem toda razão. Eu já te devo demais. Tá na hora de tomar vergonha na cara.
Sai pela porta. As ideias acelerando cada vez mais.
Bóris acende o charuto, traga, solta devagar. Encara Vilela através da fumaça. Estão sentados um de frente para o outro, numa sala com pé direito duplo no bairro Moinhos de Vento. O agiota está relaxado em sua poltrona, as pernas cruzadas. Vilela parece pequeno de tão encolhido, com as pontas dos dedos esguichando água.
— Charuto?
— Obrigado. Não fumo.
Por um longo instante, o foco do agiota abandona Vilela e se fixa numa tela modernista que é praticamente a definição do caos, com traços, ângulos e cores que parecem dispostos a saltar da moldura. De algum modo, isso traz a paz para Bóris. Vilela, em contrapartida, sente o silêncio frio a lhe espetar como uma saraivada de alfinetes.
— Então tu precisa de mais dinheiro?
— É só até o fim do mês.
— Só até o fim do mês — repete Bóris, sem tirar os olhos do quadro. A frieza da cena parece congelar tudo, menos o suor de Vilela que ainda se mantém líquido.
— Tô com um negócio que, se der certo, consigo pagar até antes — mente Vilela, tentando captar alguma reação, mínima que seja, na expressão imóvel de Bóris. Não consegue.
O silêncio gelado perdura por quase dois minutos e várias miligramas de suor. Então Bóris acena com o braço e, quase que instantaneamente, surgem dois brutamontes de terno ao seu lado. Cochicha algo no ouvido de um deles, e quando Vilela se dá conta, está sendo enxotado a pontapés. Ainda ouve a voz do agiota:
— Tu tem até o fim do mês pra pagar o que já me deve. E não invente de aparecer aqui sem essa grana.
Vilela é arremessado na calçada, e bate a cabeça na lixeira de ferro. Fica ali por um tempo, refazendo-se do susto e contando os ferimentos que ainda não doem porque está de sangue quente. Levanta e vai para casa disposto a tomar um banho frio enquanto ainda tem água. As ideias aceleram e colidem como partículas subatômicas num colisor. As leis comuns da física pouco ou nada mais interferem nas suas decisões.
Você chegou ao fim da amostra de “A Ferroada do Escorpião”. A história está longe de acabar. Para descobrir o que acontece a seguir, continue a leitura clicando no botão abaixo.