O adjetivo não é seu amigo
Quando adjetivar demais pode arruinar sua história
Uma das dicas de escrita mais importantes de Stephen King está em seu livro “Sobre a Escrita”, onde ele afirma que “a estrada para o inferno é pavimentada de advérbios”. O que ele não diz, e acho que vale a pena acrescentar, é que essa mesma estrada, ao que parece, é ornamentada de adjetivos.
Imagine um jardim. Os adjetivos são as flores. Ter algumas é essencial, elas dão cor e vida ao ambiente, mas ter muitas vai fazer o seu jardim parecer um cemitério. Com o excesso de adjetivos não é diferente, eles sufocam a narrativa, subestimam o leitor ao acrescentar detalhes que ele certamente teria percebido sozinho, e, por fim, trocam a arte de “mostrar” pela mania irritante de “contar”.
Para exemplificar o que digo, veja um trecho do meu conto “Tornado de Fogo”, onde tento descrever uma cena de calor extremo:
“Quando o casal Rodrigues parou o carro em frente à casa de Chico, há cerca de quinze minutos, o termômetro no coração da Praça da Matriz marcava 42ºC. (…) Ele esquadrinhou o horizonte, onde o topo dos telhados cinzas tocava um céu esfumaçado.”
A força aqui está nos fatos: 42ºC (…) um céu esfumaçado — o adjetivo, neste caso, é visual e indispensável para compor a cena. A combinação desses elementos cria a imagem de angústia. O leitor sente o calor; não precisa que o narrador o qualifique como “opressivo”.
Agora, vejamos como ficaria uma versão ornamentada de adjetivos:
“No calor insuportável daquela tarde escaldante, o preocupado casal Rodrigues parou seu carro velho em frente à humilde casa de Chico.”
Nem preciso dizer que o resultado aqui é sofrível, preciso? “Insuportável” e “escaldante” não são apenas ornamentos desnecessários, mas redundâncias. Optar por uma delas é menos ruim, mas combiná-las é a receita para um texto cujo único destino certo é a lixeira. Se o texto fala de um Tornado de Fogo que avança sobre a cidade, e se o casal Rodrigues está dando no pé antes que seja tarde, o leitor não precisa de um escritor sabichão para lhe dizer que eles estão preocupados. E sobre a casa de Chico, deixe que a descrição do local e da própria personalidade do personagem mostrem se a casa dele é humilde ou não. Você, aspirante a escritor, não é o Michel Teló em sua humilde residência, ok? E dito isto, este é o tipo de texto que atrapalha o desenvolvimento da cena, com um narrador que fala demais entre a história e o leitor.
Em cenas de ação, o efeito é o mesmo. Os adjetivos funcionam como freios.
“(…) um carro, vindo da Duque em alta velocidade, cruzou o amarelo intermitente, deu uma guinada à esquerda e foi dar com o focinho na haste do semáforo, ricocheteando num poste de energia e terminando com a traseira enfiada na fachada envidraçada da Caixa, que se esfarelou com o impacto…”
A cena se move através dos verbos: cruzou, guinou, ricocheteou, enfiou, esfarelou. É cinema. A violência do momento existe nas ações. Compare com a versão lenta: “(…) um carro veloz e descontrolado deu uma guinada brusca e violenta… batendo fortemente… terminando com sua traseira amassada na belíssima fachada… que se esfarelou com o impacto terrível.” A ação, antes nítida, se torna um desfile de ornamentos e obviedades.
Para a emoção, a armadilha é parecida. É mais eficaz mostrar os efeitos do desespero do que nomeá-lo.
“…ajoelhada a sua porta, havia uma mulher jovem, encharcada de suor, olhar de súplica.”
Três detalhes. Ajoelhada. Encharcada de suor. Olhar de súplica. A partir disso, o leitor constrói a emoção. É um convite à participação. A versão que explica — “uma mulher jovem e desesperada, com um olhar triste e suplicante” — nos trata como espectadores que precisam de um guia.
Isto não é um manifesto pela erradicação dos adjetivos. Seria como pregar por um jardim feito apenas de grama. Uma flor aqui e acolá é necessária. O mesmo com os adjetivos. Eles funcionam quando criam o contraste que a cena pede, como a “melodia alegre” do rádio em meio ao “cenário de caos”. Aqui, o adjetivo não descreve o óbvio; ele cria ironia e aprofunda o tema. Ele tem uma função.
Na sua próxima revisão, trate cada adjetivo como um suspeito. Ele é necessário? O verbo ou o substantivo já fazem o trabalho? Existe uma ação ou um detalhe que possa substituí-lo?
Confie nos seus verbos. Confie nos seus substantivos. Acima de tudo, confie no seu leitor. Cultive um jardim onde cada flor tenha seu propósito e espaço para respirar.