Tornado de Fogo
Sinopse: Enquanto todos evacuam as cidades na rota do tornado, Chico, um homem cansado de lutar, decide ficar e tomar sua última cerveja. Mas uma batida na porta muda tudo: uma mulher agonizante lhe entrega um bebê e morre. Agora, forçado a proteger uma vida inocente, ele descobrirá que a tempestade lá fora não é seu único inimigo.
Gênero: Ficção Científica, Suspense
Tags: Sobrevivência, Ação, Pós-apocalíptico
Aviso de Conteúdo: Esta história contém cenas de violência e linguagem imprópria.
1
Quando o casal Rodrigues parou o carro em frente à casa de Chico, há cerca de quinze minutos, o termômetro no coração da Praça da Matriz marcava 42ºC. Agora que a temperatura se aproximava dos cinquenta, ele se perguntava se não teria sido melhor aceitar a carona e deixar a cidade como todos.
Chico desligou a mangueira e olhou atentamente para a fachada da casa que acabara de molhar, com o intuito de resfriá-la e mitigar o desastre a caminho; já estava quase seca e a mancha úmida ia diminuindo tão depressa quanto uma gota de água sobre uma chapa quente. Ele esquadrinhou o horizonte, onde o topo dos telhados cinzas tocava um céu esfumaçado. Chico achava que o céu já fora azul um dia, mas não tinha certeza.
Atirou a mangueira no chão e entrou em casa. Foi até o freezer e abriu a última cerveja gelada, se lamentando por não ter feito compras. Beber nunca foi solução para nada, mas quem sabe deixasse o fim do mundo menos desinteressante.
Foi para o sofá, e com cuidado retirou a prótese da perna esquerda. Secou o suor do coto com a toalha que trazia no ombro, a mesma que usava para enxugar o rosto e que precisara torcer inúmeras vezes na última hora. Tanto fazia! Num mundo em colapso e sem esperanças, higiene era a última coisa em que Chico precisava pensar.
Ligou o rádio de pilhas. No começo só ouviu estática, mas depois de um tempo trocando as estações encontrou uma que tocava músicas alegres, formando um contraste com a realidade tão insano que beirava a paródia. “Melodias alegres para animar um mundo triste”, deveria ser o slogan da emissora.
Chico segurou o radinho firme entre os dedos suados, e o fitou com um orgulho engraçado. Lembrava-se das pessoas que riram dele, e o mandaram jogar o rádio fora. Quem é que usa coisas com antena em plena era digital? Então viera a notícia que — num primeiro momento — só os amantes do rádio puderam escutar: o acúmulo de lixo espacial em órbita da Terra criara um fenômeno estranho, batizado de “A valsa dos satélites”. Com milhares de satélites desgovernados se chocando, criando micro e macro explosões, todos os sistemas informatizados deixaram de funcionar do dia para a noite, gerando a maior crise tecnológica e econômica da história do planeta. Levara quase um ano para que as redes fossem parcialmente reconstruídas, e depois de quase uma década do ocorrido, a miséria no planeta continuava em aclive.
Agora o inimigo era outro: um tornado de fogo que, segundo o Centro Estadual de Meteorologia (CEM), se formara no Cerrado, pela combinação de seca extrema, temperaturas elevadas e ventos fortes. O estranho fenômeno que devastara Brasília naquela manhã de domingo, avançava sobre o sul de Goiás, e não tardaria a chegar em Caldas Novas.
— Pelo menos nenhum caldense vai morrer! — disse Chico, pensando em todos que deixaram suas casas para trás. Ergueu a caneca e brindou no vazio. Um brilho úmido lhe brotou nos olhos. — A mim, que não fugi, e a estas paredes, que me viram nascer e agora vão me servir de túmulo.
Olhou com volúpia para a tela na parede, desejando alguns minutos de qualquer besteirol que o fizesse morrer sorrindo, mas a desgraça do aparelho simplesmente não funcionava em dias de calor excessivo. Já teria comprado uma tela nova se a aposentadoria por incapacidade permanente não fosse uma piada pronta.
Pelo menos ainda tinha cerveja!
Mas não durou muito. Terminou pouco antes das pilhas do rádio descarregarem. Chico limpou o bigode de espuma com o antebraço suado e adormeceu.
Acordou quase uma hora depois, achando ter ouvido batidas na porta. Aguçou os ouvidos como um cão em alerta, e quando estava prestes a concluir que sonhara, o som se repetiu, fraco mas inconfundível. Como era possível? Chico julgava ser o último dos moicanos. Moicanos não, caldenses. Caldenses também não, covarde! O último dos covardes, o único que decidira jogar a toalha quando as coisas ficaram feias.
De novo as batidas. Mais fracas do que antes. E com elas… o quê? Um fio de voz? Chico não tinha certeza. Prendeu a respiração para ouvir melhor, porém a voz não se repetiu. Também, com todo aquele vento assoviando e lambendo paredes, quem quer que ali estivesse teria de gritar para ser ouvido. Então ele ouviu um som diferente do anterior, tão característico e improvável que só podia ser um sonho. Era o choro de um bebê, e como este não parava, pelo contrário, fazia-se contínuo, a realidade se impôs e se refletiu no semblante embasbacado de Chico. Ele secou o coto, recolocou a prótese e praticamente correu para abrir a porta.
Ao abri-la, uma lufada quente lhe atingiu com a força de uma bofetada. Mas o golpe foi leve em comparação com o que se seguiu: ajoelhada a sua porta, havia uma mulher jovem, encharcada de suor, olhar de súplica. Aos pés da jovem estava o chorão, protegido pelo bebê conforto. Chico notou que havia bolsas de gelo estrategicamente presas ao acolchoamento do acessório.
A mulher balbuciou sons inaudíveis, mas Chico não precisava de palavras para saber o que tinha de fazer. Pegou o bebê conforto pelo arco e o levou para dentro de casa. E quando retornou para ajudar a mulher, ela já estava morta.
Você chegou ao fim da amostra de “TORNADO DE FOGO”. A história está longe de acabar. Para descobrir o que acontece a seguir, continue a leitura clicando no botão abaixo.