A Menina à Beira do Penhasco
Sinopse: Durante uma tempestade, um homem se depara com uma garotinha pedindo ajuda à beira de um penhasco onde uma Kombi acabou de cair. Ela implora que ele salve sua irmã bebê, presa nos destroços. Ele promete fazer o resgate, sem saber o quanto essa promessa marcará sua vida para sempre.
Gênero: Drama
Tags: Resgate, Drama Familiar, Suspense
Aviso de Conteúdo: Esta história contém descrições de acidente e morte.
Só quem já dirigiu na estrada da Chapada, em Canela, sabe: descer aquilo é como descer numa montanha-russa, só que sem trilhos. A vantagem é que você pode (e deve, ao menos que esteja pensando em suicídio) usar os freios.
Naquela noite chovia pra cacete! A chuva açoitava o para-brisa com uma fúria leonina, e, ainda que houvesse três pares de limpadores, não seria suficiente.
Por mais de uma vez, eu quis parar minha Parati, ligar o pisca-alerta e esperar até que a chuva parasse. Mas fiquei com medo porque a estradinha de saibro era estreita e cheia de curvas sinuosas. Dum lado um paredão de terra, do outro um precipício tão íngreme que, nos trechos mais críticos, você podia ver o topo das árvores rente à estrada. Se um carro viesse de trás e o condutor não me enxergasse a tempo, me arrastaria para a morte com a mesma facilidade que a bola de três furos arrasta um pino de boliche.
Não parei, mas liguei o pisca-alerta mesmo assim. Um homem prevenido vale por dois, já dizia meu avô.
Venci uma curva à esquerda usando a primeira marcha, e logo depois engatei a segunda. Usar o freio-motor era outra coisa que aprendi com o meu avô. Certeza de que se não o usasse, os freios a tambor esquentariam antes de chegar ao pé do morro, e eu ficaria à mercê da própria sorte.
Peguei a blusa do Rosa Tattooada no banco do carona e usei para desembaçar o vidro. Adiantou, mas não muito. O insulfilm blackout era o meu orgulho em dias de sol, mas fazia com que eu me sentisse o maior dos trouxas em dias de chuva e neblina.
A água rolava pelo barranco e cruzava a estrada, levando parte do saibro consigo e abrindo valetas enormes. Cheguei a um trecho parcialmente obstruído por um deslizamento de terra. Ou eu seguia em frente, tentando passar pelo filete entre o desmoronamento e o penhasco, ou retornava por onde vim, o que exigiria uma manobra igualmente arriscada. Então optei por seguir em frente, com o cu na mão. Hoje sei que fiz a escolha certa, embora não tenha sido a mais inteligente, levando em conta que eu só tinha percorrido um quinto da descida.
Continuei por dois quilômetros. Eu tinha acabado de virar à direita, em mais uma daquelas curvas tenebrosas, quando me deparei com aquela pequena silhueta disforme no meio da estrada — o que mudaria minha vida para sempre. Num primeiro momento, pensei que fosse um guaxinim ou quem sabe o cachorro dalgum chacreiro da região. Pisei no freio e senti os pneus deslizando no saibro molhado. Se eu estivesse um pouco mais embalado, provavelmente não teria conseguido parar.
Puxei o freio de mão com tanta força que foi um milagre não o ter arrancado. Desci do carro e imediatamente fui atingido por uma lapada de chuva gelada como picolé. Corri em direção à silhueta, me abaixei e a agarrei pelos ombros. Era uma menina. Mais tarde eu viria a saber que ela tinha completado sete aninhos na véspera. Ela usava uma jaqueta vermelha que descia até os joelhos. A jaqueta tinha um capuz com bordas de pelúcia que lhe cobria a testa. A cara branquinha estava cheia de ranhuras sujas de terra e sangue.
— Socorro, tio! Socorro! — ela disse, fitando em mim aqueles olhinhos de um azul clarinho. — Minha mana ainda tá lá embaixo. Ajuda ela! Por favor, tio, ajuda ela a sair da Kombi.
Só então eu percebi duas marcas de pneus (quase apagadas pela chuva) que se estendiam por uns vinte metros e acabavam na borda do penhasco. Senti um tremor que não era apenas de frio. A vegetação tinha sofrido um duro golpe no trecho onde as marcas de pneus terminavam, pois havia galhos retorcidos no entorno dum buraco recentemente aberto entre as árvores.
— Por favor, tio! Ajuda! Meus pais também tão lá.
— Certo, mocinha. Eu vou ajudar o seus pais e a tua maninha, mas primeiro tu precisa te acalmar, tudo bem? — eu a encarei enquanto ela tentava inutilmente conter uma cachoeira de lágrimas e soluços. — Qual teu nome?
— Brenda. E minha mana se chama Betina. Mas todo mundo chama ela de Tina.
— Certo, Brenda. Eu me chamo Bernardo e vou tirar a Tina de lá. Mas antes vou te colocar num lugar seguro, tá bom? — eu disse isso enquanto uma voz dentro de mim dizia que não havia nenhum lugar seguro naquelas montanhas. — Tu consegue caminhar até o meu carro?
Ela fez que sim com a cabeça e me seguiu até a Parati. Abri a porta de trás para que ela entrasse. Em seguida, abri minha mochila e despejei meus cacarecos no banco. Peguei uma toalha branca e dei a Brenda para que se secasse. A tolha logo se transformou numa espécie de pintura abstrata, mesclando branco, marrom e vermelho.
Peguei minha blusa do Rosa Tattooada e dei a ela para que vestisse no lugar da jaqueta ensopada.
— Gosta de rock?
— Eu não sei, tio.
— Essa é a roupa mais quente que eu tenho pra te dar. Tem certeza que tá bem?
— Tenho. Eu só quero a minha mana, tio.
Franzi a sobrancelha, apertei os lábios. Pela primeira vez eu sentia uma certa estranheza no fato de a menina falar muito da irmã e pouco dos pais. Mas dei um jeito de afastar o pensamento. Aquela era uma emergência e as preferências de Brenda estavam fora de questão.
— Fique calma. Eu vou tirar a tua mana de lá — respirei fundo aquele ar úmido e gelado, e fiz o que as pessoas sempre fazem diante duma criança: — Eu prometo que vou trazer a tua irmã de volta. — E a voz dentro de mim acrescentou: viva ou morta!
Bati a porta de trás. Voltei ao volante e manobrei a Parati, colocando-a o mais rente possível ao paredão de terra, numa distância razoável da curva, de modo que outro carro que descesse não se chocasse com o meu.
Peguei meu Motorola do bolso da jaqueta para ligar para os bombeiros, a defesa civil, a polícia, o SAMU, o papa, a porra toda. Mas o aparelhinho estava sem sinal. Grande novidade! Aquela era uma região complicada de sinal em dias de tempo bom, quem dirá numa tempestade daquelas.
Saí do carro e andei alguns metros em direção à curva, sem pensar que meu celular não era à prova d’água. Quem é que lembra disso numa hora daquelas?
Não adiantou. Não havia sinal nem na curva e nem a cem metros dela. O jeito era esquecer a ajuda e colocar a mão na massa.
Fui até o desfiladeiro, pisando devagar, testando a terra sob meus pés. Olhei para baixo. Havia um corredor recém-aberto na vegetação, com árvores partidas escoradas em troncos maiores ou deitadas sobre a terra lavrada pelos pneus de uma Kombi branca que jazia lá embaixo, de rodas para o ar, dobrada sobre o tronco de uma imensa figueira, grossa demais para ceder ao impacto.
Por Deus, havia uns oitenta metros que me separavam daquela Kombi. Mesmo que eu conseguisse chegar lá, como conseguiria içar alguém até a estrada. Bombeiros treinados e com os equipamentos adequados teriam dificuldades para executar essa tarefa.
Voltei ao carro, encarei Brenda.
— Quantos anos tem a tua mana?
— Sete meses, tio.
Engoli em seco. Não sei se pela resposta ou se pelo tom de súplica na voz e nos olhinhos da pequena.
Sete meses! Quanto Tina devia pesar? Uns sete ou oito quilos? Nove no máximo. Não havia desculpa para não descer até lá. Uma rajada de vento me atingiu no rosto e eu tive um mau pressentimento: e se Tina estivesse morta? Considerando a situação, a probabilidade era de quase cem por cento.
Abri o porta-malas à procura de algo que pudesse me auxiliar na descida e no resgate da bebezinha (eu já estava conformado de que não poderia salvar os pais). Foi então que eu me deparei com o triângulo refletor e me dei conta de que devia ter sinalizado o entorno. “Primeiro sinalize o local para evitar que a tragédia faça novas vítimas”, é o que sempre dizem naquelas palestras de primeiros socorros, não é? Mas quem disse que na hora do vamos ver a gente lembra dessas coisas?
De qualquer modo, nunca é tarde para fazer a coisa direito. Posicionei o triângulo um pouco antes da curva. Peguei alguns galhos e fui atravessando-os na pista, ordenadamente, com uns dez metros de espaçamento.
Voltei ao porta-malas e peguei um carretel de corda em meio a um amontoado de ferramentas e coisas inúteis. A corda de dez milímetros não era muito extensa. Devia ter uns quarenta ou cinquenta metros no máximo, mas já era bem melhor do que nada.
Comecei a descer o penhasco num trecho coberto de vegetação. Escolhi uma árvore grossa. Escorei-me nela e comecei a empurrar para ter certeza de que aguentaria o meu peso. O tronco nem se mexeu. Então passei a corda três vezes ao redor da árvore e dei uma série de nós cegos. Conheço vários tipos de nós, mas o nó cego é o tipo em que mais confio: se no final você tiver de cortar a corda para soltá-la é porque a coisa estava realmente firme.
Joguei o carretel na direção da Kombi, e por uma fração de segundos tive a esperança de que a corda chegaria até lá. Ledo engano. A corda esticou ao máximo quando o carretel atingiu metade do caminho. O carretel vazio se soltou e seguiu seu curso, quicando; passou ao lado da Kombi e desapareceu no matagal.
Continuei a descer, segurando-me na corda. O solo era uma massa barrenta, mistura de terra, saibro e vegetação morta. Era preciso tomar cuidado com as raízes sobrepostas. Algumas eram bem fininhas. Pareciam estar ali como uma espécie de armadilha natural, pronta para derrubar os homens que se atrevessem a invadir a floresta.
A corda acabou e eu precisei seguir sem ela, apoiando-me nas árvores. Escorreguei e desci de costas, como se tivesse me lançado num tobogã. Ralei em pedras e galhos e fui me chocar contra uma árvore uns dez metros abaixo. Senti uma dor lancinante atrás da coxa direita. Levei a mão e descobri que a havia perfurado com um galho. O sangue quente e viscoso escorreu e manchou minha calça.
— Inferno! — eu gritei e travei os dentes.
Mas era preciso seguir. Eu estava a uns quinze metros da Kombi e não podia decepcionar a menininha que esperava pela irmã no banco de trás do meu carro.
Mancando e tentando ignorar a dor, desci. Cheguei até a Kombi, um pálido cadáver de lata retorcida. Contornei-a, procurando a melhor forma de acessar seu interior. Parei ao lado do que tinha sido a porta do motorista. O painel e o volante quebrado meio que tinham se fundido ao corpo do homem que provavelmente era o pai de Brenda. Não havia dúvidas de que ele estava morto.
Me abaixei para ver a mulher no assento do carona, a mãe da garota. Ela estava igualmente morta (talvez até mais morta), pendurada pelo cinto de segurança como uma perna de linguiça exposta no açougue. O rosto encharcado de sangue, escorrendo pelos cabelos loiros. Uma ânsia me subiu pelo esôfago e eu só tive tempo de me virar para não vomitar no pai de Brenda. Deixei todo meu almoço lá, uma pasta mal digerida de arroz, feijão, ovo e bife.
Tenho vergonha de admitir, mas, apesar de tudo, eu senti um certo alívio ao constatar que os pais de Brenda estavam mortos. Era aquele tipo de alívio involuntário, sabe. Eu não teria de me preocupar com eles enquanto tentava salvar a vida de Tina. Isto é, se Tina estivesse viva. Eu ainda não sabia, mas no fundo era como se soubesse, porque eu podia senti-la. Não me pergunte como porque eu não saberia o que dizer. Eu apenas a sentia, e isso é o bastante.
Fui até a porta traseira, me ajoelhei e meti a cara no buraco estreito onde ficava uma das janelas da Kombi. Lá estava a cadeirinha, pendurada pelo cinto de segurança. Não sei como aquilo aconteceu. Provavelmente os pais não tinham prendido a cadeirinha do jeito certo, o que na maioria dos casos resultaria em morte. Mas naquela situação, talvez tenha sido a salvação de Tina, porque a cadeirinha ficou suspensa como um balanço, e ela acomodada como um anjinho num berço. Senti vontade de chorar e chorei. Ah, como eu chorei!
Mesmo chorando, não parei. Varei pelo vão da janela, deslizando sobre o teto embarreado da Kombi. Minha coxa ainda doía e sangrava, mas era uma dor levinha. A adrenalina era o meu analgésico. Dei um jeito de desprender a cadeirinha e arrastá-la para o lado de fora. Ainda chovia um bocado. Fiquei de joelhos novamente. Peguei o bebê como quem pega uma peça de vidro, rara e frágil. Estava quente em sua mantinha cor de rosa, ainda seca. Fiquei ali, olhando-a, sem poder acreditar.
Abri minha jaqueta de couro e a aninhei contra o peito. Fechei o zíper sobre ela, envolvendo-a como um filhote de canguru na bolsa marsupial da mãe, deixando apenas a cabecinha de Tina para fora. Pus a jaqueta por dentro da calça e apertei o cinto para garantir que não a perderia por baixo.
Então começou a subida. Eu me agarrava em galhos, caules e raízes. Uma luta para manter os pés firmes no chão escorregadio. Minha perna direita ia de arrasto. Não doía tanto, mas estava rígida como um pé de mesa.
Cheguei até a ponta da corda. Agarrei firme. Enrolei-a no antebraço direito. Eu não podia cair. Não com Tina em minha bolsa marsupial. Precisava ser uma mamãe canguru eficiente. Comecei a puxar. Eu não dava um passo adiante sem ter a certeza de que o pé de apoio estava firme, fincado na terra.
A chuva ia lavando o suor. Um gosto amargo chegava aos lábios. Era uma mistura de fluídos corporais e terra encharcada. Eu resfolegava. De vez em quando cuspia um pouco de barro e mato. Às vezes me atrapalhava e acabava engolindo um pouco.
Não sei quanto tempo levou, mas eu consegui. Cheguei lá em cima, finalmente. Com as mãos no joelho, a boca aberta, pequena demais para aspirar todo o oxigênio de que eu precisava.
A água da chuva escorria pelo meu queixo e pingava no rosto da menina. Por incrível que pareça, Tina estava praticamente seca, tendo em vista o contexto, e começou a chorar à medida que as gotas a molhavam. Levei-a para o meu carro e a coloquei no banco de trás, ao lado de Brenda.
— Aí tá tua maninha — eu disse, num tom de missão cumprida.
— Tu conseguiu, tio! — ela disse, e se jogou nos meus braços. Deve ter sido o abraço mais grato que já recebi em toda a minha vida.
Depois ela se dobrou sobre Tina, acariciou sua mãozinha, beijou-lhe a face rosada. Tina cessou o choro, sorriu. Seus olhos eram grandes, de um azul ainda mais vivo do que os olhos de Brenda.
Eu estava emocionado, mas de repente me ocorreu que quando a euforia passasse, Brenda perguntaria pelos pais, e eu teria de dar a triste notícia de que elas tinham sido contempladas com a orfandade.
De repente, veio-me um daqueles lampejos de responsabilidade. Olhei para a mantinha quase seca de Tina e para a blusa do Rosa Tattooada que eu tinha emprestado para Brenda. Por sorte, não precisei dizer nada, pois Brenda compreendeu o meu olhar.
Tirou a blusa e me entregou.
— Enrola isso nela. A mantinha tá quase seca, mas quase não é o bastante para um bebê.
Ela sorria de um jeitinho meigo. Eu passei a mão no rostinho dela, orgulhoso e um pouco surpreso por encontrar tanta responsabilidade numa criança.
— Certo. Agora pula para o banco da frente enquanto eu a troco.
Tirei a mantinha úmida de Tina e a enrolei com a blusa, única coisa realmente seca naquele carro. Enquanto eu fazia aquilo, perdido naqueles olhinhos que pareciam um pedacinho do céu, acabei me descuidando de Brenda, e quando me voltei ela já não estava lá.
Saí correndo, arrastando a perna, gritando o nome de Brenda. A chuva não dava trégua e a floresta ameaçava desabar sobre minha cabeça. Continuei gritando e correndo. Parei à beira do penhasco, com medo do coração saltar pela boca e ter o mesmo destino da Kombi.
Foi então que meus olhos viram, aquele ponto vermelho junto a uma árvore, uns trinta metros abaixo. Não sei como fiz aquilo, foi meio que sem pensar, mas, ignorando a corda, desci (ou caí) meio que escorregando, rolando, me agarrando em raízes, fincando as mãos e os pés na terra lodosa. E dessa forma eu consegui chegar até Brenda. Eu a peguei no colo, chacoalhei-a, gritei.
— Por que tu saiu do carro? Por quê? Me diga por quê? Tu tava bem lá! Tava frio, é verdade, mas tu ia sobreviver!
Brenda estava morta. Demorou, mas então eu percebi: ela estava gelada, pálida e rígida; sua morte não era recente. Era coisa de horas. Notei que havia um pedaço de vidro atravessado no pescoço dela. Provavelmente ela estava sem cinto na hora do acidente e foi arremessada para a morte.
Senti um calafrio percorrer meu corpo. Minha coxa voltou a doer e eu me dei conta de que precisava voltar para o carro. Havia uma bebezinha no carro e ela dependia de mim; agora ela só tinha a mim.
Não sei como consegui voltar, muito menos como dirigi até o hospital; carregar minha perna direita era como carregar um moerão de cimento a tiracolo. Agora eu estou bem. E Tina também está. Muito tempo se passou desde aquele dia. Sete anos para ser mais preciso. Ela me chama de pai. Algumas pessoas estranham porque eles só olham para o tom de pele, eu preto, ela tão branquinha. Acho isso uma bobagem, e a Tina também acha. Sou o pai dela e ninguém vai tirar isso da gente.
Brenda está enterrada no cemitério Parque da Araucárias, no mesmo mausoléu que os pais. Todos os anos eu levo a Tina para visitá-los. Tina sempre acende uma vela e agradece ao espírito da irmã, sua protetora.
Eu também agradeço. Se não fosse o espírito de Brenda, Tina estaria morta e eu não teria o gostinho de chamá-la de minha filha.